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Qual a última moda da moda?

Escrevi esse textão para o Medium da firrRRma e quis dividir com vocês aqui também. Por que abrir a roda nunca é demais, né? 😉

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A moda está no divã. É o fim de uma era. O “mundinho” chegou ao centro de um furacão. Essas são só algumas das previsões (apocalípticas, sim) feitas pelos meus especialistas preferidos da área. Todas as revistas brasileiras de moda fizeram ao menos uma matéria sobre a crise de identidade que o mercado enfrenta nos últimos meses. Porque fato é que nunca tantos estilistas pediram demissão ou foram desligados assim. De marcas gigantes. Ao mesmo tempo. Não temos mais como fugir.

Imagine a cena: o maior estilista brasileiro, reconhecido internacionalmente, se afasta da marca que carrega o seu nome. Parece improvável? Pois aconteceu há pouco mais de um mês. “Moda é feita de sonho e desejo. E alguns sonhos não têm preço”, disse Erika Palomino sobre a falência do sistema atual.

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Depois da saída de Raf Simons da Dior, a guru do jornalismo Suzy Menkes deu o diagnóstico: a moda está quebrando. Vejamos. O cara é um gênio, vivia um momento de glória, chegou ao topo e deixou a maison apenas… porque quis. A vida de um estilista é sempre no limite, do glamour à garagem em looping. Mas inclui tudo, menos tempo. “Eu preciso de mais tempo. Todo mundo hoje na moda precisa de mais tempo”, declarou Alber Elbaz quando saiu da linha de frente da Lanvin depois de — pausa dramática — 14 anos.

Basta olhar com atenção para identificar que os criativos são os que mais sofrem com essa velocidade das coisas. Nem todos aqueles que são emoção e arte conseguem se dar bem com o personagem que precisa estar presente em campanhas publicitárias, aparições, inaugurações de lojas, entrevistas, etc., etc., etc. E vamos além: se pensar em 2016, abril, o mergulho fica ainda mais profundo. Não entendeu? Role qualquer timeline de uma rede social: o público exige que essas vozes estejam na internet.

Twitter, Instagram, Snapchat, Facebook.
Quem compra quer atenção. Conexão. Dar follow.

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Alguns são ainda mais enfáticos ao culparem as redes sociais como responsáveis por esse novo panorama, que, vamos admitir, não agradou a geral. Estamos todos à beira de um colapso nervoso, escreveu a editora Renata Piza. “Desde que as mídias sociais substituíram os jornais, a importância dada ao Instagram ou ao Snapchat extrapolou qualquer limite razoável. A regra é trabalhar 24 por 7, estar disponível, ou melhor, grudado no smartphone postando sem parar. A era do parecer, não do ser. A era dos pixels na tela, não das conversas”.

Calma lá: na vida, quem perde o telhado // em troca, recebe as estrelas, cantaria Tom Zé.

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Inspirar uma nova dinâmica no consumo de moda e questionar o timing dos desfiles pode ser, na verdade, um brand new start. No passado (tão recente quanto ontem, rs), essa relação entre moda e consumo era como um GIF do Boomerang, um filme que começa nas criações, termina nas vendas e repete sem parar. Só que lá na ponta isso não fazia sentido para o espectador consumidor, que é quem paga o ingresso, faz a bilheteria, sustenta a engrenagem. Chegamos ao ponto em que as tendências dos desfiles apareciam primeiro nas fast fashion. Toda uma energia criada para a passarela precisava ser colocada em standby por quem curtiu nos feeds do Instagram. Não é loucura?

Com os desfiles sendo transmitidos em tempo real, a vontade de quem assiste também vira instantânea. São elas, as novas mídias, deixando o “súper na moda” para lá de exposto.

É uma conta que não fecha: se o desfile precisa provocar a reflexão e o desejo, sendo um norte para as vendas, como justificar a distância entre o que é mostrado nas passarelas e o que vai para as araras do consumo? Na cobertura das semanas de moda, esse abismo fica evidente: novembro, 30 graus, sol, pele à mostra. As marcas mostram couro, tons escuros, tecidos para temperaturas negativas. Coloco os pés fora das salas de desfiles, derreto. Pois se nem as estações são mais tão definidas, por que as coleções deveriam ser? Nota: estamos no outono, em abril, e faz quase 35 graus na rua enquanto escrevo este texto.

Segura na minha mão e vem para a primeira verdade: o que funcionava até hoje já era. O segredo está em descobrir como manter o brilho da novidade aceso mesmo com o ~real time, e traduzir isso para lucros. Não tenho todas as respostas e nem achei que encontraria, mas também não posso deixar de perguntar.

“O desfile é 360 graus, atinge a imprensa, o varejo e, através da internet, o consumidor. É uma grande ferramenta de construção da imagem da marca e também provocador de desejo para o consumidor final”, comentou Paulo Borges, fundador e diretor do SPFW.

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Temos. O desfile precisa ser um instrumento para o consumidor final. Escuto nos fones David Bowie com o hino ch-ch-ch-ch-changes // turn and face the strain e penso comigo: é tempo de ligar duas pontas que estavam separadas.

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Os estilistas mais reservados, mesmo talentosos, vão perder espaço, esbravejam por aí. Olha, deixa eu me apresentar: meu nome é Taidje e eu fui a aluna que tinha a certeza das respostas, mas não levantava a mão. Ganhava estrelinha, mas não abria a boca. E algo me diz que uma hora a poeira baixa, e o número de seguidores não fica acima da experiência e do olhar de quem tem sensibilidade e criatividade. Pode ser só uma impressão sem nenhum fundamento? Pode. Mas reservei esse parágrafo para depositar um pouco de fé na humanidade. 😉

Tem também os pregadores da desaceleração. “Viva o escapismo!”, coleções, campanhas, marcas inteiras pelo slow fashion e pelo consumo consciente. Em um dos meus grupos de mulheres no Facebook, mais de 70 meninas comentaram suas escolhas para uma vida mais econômica. Um ponto de atenção: comprar roupas. Armário cápsula, redução de gastos em shoppings e aluguel de peças foram algumas das soluções.

Para a Oficina de Estilo, empresa de consultoria de estilo pessoal, o consumo pode ser substituído por autoestima. “O que há de mais atual na moda do nosso tempo não é material — é imaterial. Criatividade é ativo precioso para quem exercita estilo pessoal (na prática, nas escolhas de todo dia): aparentemente todo tipo de produto já foi inventado e reinventado, o museu de grandes novidades certamente tem representantes nos nossos próprios armários”.

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Outro grupo entra de cabeça no vórtice. A Prada anunciou uma estratégia para os próximos anos com foco na nova geração, no imediatismo e no on-line. A Burberry fez uma “faxina geral” e já neste ano disponibilizou as peças para compra nos dias seguintes à apresentação, tanto nas lojas físicas quanto nas virtuais. Também não fará mais desfiles representando uma estação específica. A semana de Nova York já pensa em mudar totalmente o calendário, mostrando o inverno no inverno e o verão no verão.

Não pense que o Brasil vai ser o último a fazer check-in: o SPFW é a primeira semana de moda a oficializar a aproximação do momento do desfile com o do varejo. A edição deste ano virou apenas SPFW 41, sem Inverno/Verão. Um novo movimento carioca, a Rio Moda Rio, acontecerá entre 14 e 18 de junho também sem estações definidas e alinhada com os lançamentos nas lojas.

E eis que surge uma segunda verdade: não dá para permanecer estático no meio disso. A indústria precisa descobrir a sua luz e a sua verdade para se encontrar.

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Não entendo de exatas, mas sei que na Física a flecha do tempo aponta sempre para o futuro. Quem vai dar a direção são os protagonistas dessa história. E, se a moda é tradutora de comportamentos, fenômeno social e cultural, incitativa, indicativa, sugestiva, como escreveu Gilles Lipovestky em “O Império do Efêmero”, nada mais justo que buscar seu lugar e a sua vez.

De humanas que sou, diria que as bolas de cristal espalhadas por aí sinalizam essa oportunidade para trazer a moda mais para perto, descer do pedestal. Inacessível não é status. Porque a primeira coisa que a consumidora vida real (eu!) pensa ao ler que a Burberry mudou ou que o sistema quebrou é: “E como mexe comigo?”. O famoso E EU COM ISSO?

Talvez seja a hora de os criativos usarem a moda como ferramenta de expressão, de posicionamento e venderem isso com a etiqueta. Como preconizava uma das cabeças da Vogue Americana, Grace Coddington, o vestir de atualmente será de fato “deixar claro para a sociedade quem você é de verdade” — como um tweet.

Com o universo que se abre no on-line, cada vez mais a moda será avaliada antes de ser adotada ou rejeitada. Tenha em mente que 2015 foi o ano em que o mobile ultrapassou o desktop, ou seja, agora isso está na palma da mão, na ponta dos dedos.

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Não sabe por onde começar? Experimente, sendo marca ou consumidor, exercitar na moda sentenças como individualização, adequação e criatividade. Pratique a transgressão, cultive a rebelião, recuse repetições e conceitos cristalizados. E lembre da bandeira levantada pela mestra Regina Guerreiro: é melhor cometer um erro fenomenal do que viver na mesmice universal. A moda é isso. E está mais perto do que muitas mulheres imaginam.

Imagens: FFW, Agência Fotosite e Divulgação.

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7 coisas a notar sobre o SPFW

Atenção, fashionista: quer saber os tem-que-ter da temporada? As peças-chave, os itens-desejo, tudo o que é must have? A cor, o shape, as trends que tomaram conta das passarelas? E o que os antenados dos corredores usaram? As pegadas, os looks, as apostas para copiar? Não, não é aqui que você vai encontrar. Como diria o meme da Bela Gil, que tal substituir todas essas palavrinhas por nenhuma delas? Só quero colocar algumas coisas na mesa, abrir a roda, enlarguecer:

1. Nada é indispensável. Você não VAI APOSTAR JÁ ou CORRER PARA COMPRAR.

Se você já sabe disso, bonito demais, passe para o número dois. Mas se alguma dúvida resta aí, me abraça e repete: não, não vamos acreditar na ~imprensa~ (de veículos tradicionais a blogs de moda) que fala em último grito da moda, e invalidam todo o resto.

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[Vitorino Campos]

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[Juliana Jabour]

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[Juliana Jabour]

Lurex, anos 70, tênis branco, grafismos, franjas, brilhos, SOCORRO. Vamos começar a pensar mais sobre esses desejos? Prometam para mim? Deixa eu contar uma história: sempre fui a rainha do “quero muiiiito” e tinha que ser na hora no dia no minuto. Aí lançamos o blog e eu comecei a perder um pouco o interesse pelas coisas. Meu armário, que hoje é uma arara e três gavetas, está cada vez mais reduzido. E meu gráfico de satisfação só cresce. Ninguém muda da noite para o dia, mas comecem a reparar mais, no momento antes da compra, no que está levando vocês a fazer isso. Reflitam sobre essa necessidade (REAL, sem roubar no jogo).

Outras boas práticas que podem ser adotadas: verificar se a tal peça combina com pelo menos outras três do armário e praticar o desapego – coisas novas só entram se as sem uso saírem. Já recebi ótimas recomendações do trabalho do Closet Detox, em que as meninas Bruna Holderbaum e Milena Faé fazem consultoria de estilo pessoal com base no consumo consciente. Quem sabe não é um começo para as mais céticas?

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[Patricia Vieira]

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[Patricia Vieira]

2. O meu queridinho pode não ser o seu. E tudo bem.

A pluralidade, ela é linda. Dia desses fui em um bate-papo que acontece uma vez por mês em vários lugares do mundo, o Creative Mornings (assinem para saber mais, é um encontro muito querido). O tema em outubro foi CHOQUE, tendo como convidada a Gabriela Casartelli, mina astral aqui de Porto Alegre que é dona da A Imaculada Moda e Conteúdo. Lá pelas tantas, a Gabi falou de construção do estilo pessoal e sobre como ela é, hoje, um pouco das diversas tribos pelas quais já caminhou – das patricinhas aos rappers e por aí vai. E a Gabi é maxi, ela usa estampas e cores como poucos, acessórios, ela é vibração. Na outra ponta, eu tenho escolhido cada vez cores mais neutras e poucos apetrechos. O meu queridinho do SPFW não é o mesmo da Gabi (ou pode ser, também). A empatia, o entender o outro, o não-julgamento, servem para a vida e para a moda.

O mundo é feito de 7 bilhões de pessoas diferentes, 7 bilhões de visões que se multiplicam em infinitas possibilidades. Posso falar de história da moda e dar um background todo encantado para escolher os meus preferidos, ou simplesmente dizer: curti, mas vamos combinar que não existem os TOP, os MAIS MAIS, os MELHORES. Só as opiniões. 🙂 A propósito, vamos a eles:

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[Lily Sarti]

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[Osklen]

3. As pessoas querem ter consciência do que vestem.

A crise econômica bateu, e não foi  uma onda forte. As pessoas estão sendo demitidas, aquela colega do seu lado pode não estar ali amanhã. Tudo é líquido, até as relações, já dizia Zygmunt Bauman em DOSMILEDEZ. E é aí que a gente começa a perceber os nossos valores e hábitos de um jeito diferente. O consumo entra nisso.

De onde vem o que eu uso? Quem fez? Como? Eu quero gastar o meu dinheiro de forma responsável e consciente, e vocês? A cada compra tenho mais vontade de saber se estou dando R$ X porque é o que custa, ou o que diabos tem envolvido nesse processo. Ir no shopping é um exercício de paciência, passando pelas vitrines , vendo as etiquetas e pensando: CRUZES não. Não mesmo. É verdade que a maioria das marcas nacionais ainda não se deram conta dessa mudança no consumidor. As pessoas acabam em brechós, feirinhas, lojinhas de bairro, grupos de troca no Facebook (tenho até das meninas do trabalho, gente!). Vamos pesquisar mais sobre a procedência do que a gente compra? Deu de aceitar mercadorias feitas com matéria-prima sem qualidade, mão de obra barata e condições de trabalho sub-humanas sendo vendidas a preços de BANANAS DE OURO! E, detalhe, tudo o que na próxima estação vai estar em uma promoção absurda. Quando a gente entra nessa batida consciente, nada mais será como antes. E a sensação, amigas, garanto que é boa.

Pode parecer difícil entender – nesse momento, o Jornal Nacional fala sobre a crise econômica afetar o emprego formal e como é cada vez mais difícil arranjar um trabalho com carteira assinada, enquanto a informalidade aumenta. Mas será que o futuro não tem a ver com os frutos que essa informalidade traz? E eu me descabelando pensando em como o William Bonner poderia ser útil para abrir as portas da percepção. Pode parecer difícil entender.

Mas foca aqui comigo: quando um texto sobre fast fashion não ser democratização da moda viraliza em pleno SPFW, epa, espera lá, algo está acontecendo. Quem escreveu foi a jornalista Silvia Feola, comentando o fato de a Riachuelo colocar à venda, logo após o desfile, a coleção cápsula da estilista Lethicia Bronstein.

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“Hoje, no nosso mundo maluco e acelerado, muitas das nossas atividades diárias foram terceirizadas e passamos a conviver com a industrialização dos produtos como algo natural, da moda à alimentação. A compra de peças sazonais mal-fabricadas pode não fazer diretamente mal à nossa saúde e não ser um fenômeno tão grave como foi a precarização da alimentação, mas com certeza faz mal ao nosso orçamento e ao nosso guarda-roupa”.

COMO É QUE A GENTE NÃO FALA SOBRE ISSO TODO DIA? Ok, tecidos ruins, compras por impulso, tendências que deixam de ser em minutos, sabemos de tudo. Partiu agir? Pode parecer um papo meio hippie, mas leiam, tomem um copo d’água e releiam:

Quando compramos fast fashion vamos a favor de todo o processo de “colonização da moda”*, que marcou a entrada de grandes marcas mundiais em países estrangeiros, acabando com a produção local. Quando compramos fast fashion incentivamos o trabalho em condições sub-humanas em países que não têm (ou têm muito poucas) leis trabalhistas. Isso não é democratização de nada. Democracia não tem nada a ver com o fato de que você pode comprar mais itens e, por isso, descartá-los mais rapidamente. Democracia não é posse, mas direito.

E se depois de tudo isso, ainda assim nada parece fazer sentido, veja The True Cost no Netflix.

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4. É você quem faz a roupa.

É quase clichê chegar no quarto item e dizer isso. Mas acompanhei essa semana duas editoras da Elle, a Renata Piza e a Chantal Sordi, em uma batalha de looks que sempre tinham alguma peça em comum. E aí que a gente sempre diz que a personalidade de quem veste é o que determina a composição, o que é a mais pura verdade. Por isso eu não tenho o menor grilo quado alguém no ambiente usa a mesma roupa que eu. Tem vezes que isso nem se percebe! Postei no Insta do GG e repito aqui o que Costanza Pascolato disse:

A conclusão de toda essa movimentação é que a moda mais influente agora não cria coisas radicalmente novas, mas indica possibilidades diferentes e pessoais de usar as roupas. Ingressamos, assim, num tempo completamente novo, em que o design é menos importante do que a maneira como as peças são”montadas”. Colocado de outra maneira, “o que” passa a ser bem menos importante do que “como” nos vestimos. Bem-vindos à era do total styling.

5. Vestir ~looks da passarela na vida real não, obrigada.

Vamos falar de confiança, de autoestima, de gostar do que a gente vê no espelho. Quando eu leio uma DICA sobre usar tendências de desfile no meu dia a dia, quase tenho uma crise de riso. Primeiro porque eu vejo as fotos das modelos com 50kg – e não tenho nada contra elas, são lindas, tudo certo. Mas minha gente, eu tenho pernocas muy grossas, culotes, joanetes, peitos que poderiam ser maiores, braços que eu prefiro cobrir. E sou muito feliz assim (agora, depois de emagrecer, sou até mais saudável). Não tenho a menor vontade de usar um maiô com saia transparente. Nem saia midi com camisa fechada. Nem paetês e plissados. Se você tem, lembre do número dois.

Sempre tive birra com as ditaduras das revistas, e isso vale tanto para as que dizem USE como as que dizem NÃO USE – deixei de ler por um tempo a TPM, uma das minhas preferidas, por causa disso. Então quero dizer: a escolha é nossa. A Clarice Falcão perguntando o que faz você feliz? nunca teve tanto sentido.

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[Helô Rocha]

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[Ellus]

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[Reinaldo Lourenço]

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[Alexandre Herchcovitch]

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[Amapô]

6. Ai, o estrangeirismo…

Hoje pipocou na minha timeline uma análise do SPFW feita por Pedro Diniz, que fala: a crise econômica fez com que a maioria dos designers mostrasse coleções mais para cobrir o vácuo do que para promover a “brasilidade”. O resultado, segundo ele: referências óbvias, que soam quase como cópias, justificadas por um “alinhamento” com o que o mundo fala. De quebra, não desfilaram marcas como Triton, Forum, Tufi Duek, Cavalera. “Tirar da passarela nomes criativos […] é atestar que não se crê mais no poder do desfile para movimentar o mercado da moda”, diz ele, que termina apocalíptico: a sensação é de que moda brasileira não se sustenta sem o carimbo estrangeiro. Exemplos de submissão ímplicita aos códigos de vestimentas da Céline e da Gucci, para ele:

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[Animale]

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[Coven]

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[Iódice]

Suzy Menkes, jornalista e maga das modas, escreveu esse semana: fashion is crashing, citando a saída de Raf Simons da Dior e colocando na fogueira crises de exaustão dos criativos, que tem falta total de tempo, perdem as rédeas da vida, surtam. É a síndrome de burnout e todos esses nomes modernos. Agora Alber Elbaz está deixando a Lanvin. “Estilistas – por sua própria natureza pessoas sensíveis, emotivas e artísticas – estão sendo exigidos a aguentar muito. Demais […] Quem será o próximo a ser jogado na cova dos leões?”. É hora de repensar tanta coisa sobre esse processo, que nem saberia por onde começar.

Remando contra a maré, o meu destaque pleno e absoluto vai para Fernanda Yamamoto. Depois de ficar um ano fazendo viagens para Cariri, na Paraíba, para visitar e estreitar os laços de amizade com as rendeiras, ela promoveu um encontro de mulheres brasileiras na passarela.Toda a coleção foi feita à mão. Para as rendas, trouxe leveza, delicadeza e um ar mais contemporâneo, sem desrespeitar a tradição. Emoção, inclusão, amor, suavidade em um desfile que tinha dez convidadas especiais entre rendeiras, a avó da estilista, suas melhores amigas. Mulheres que trabalham com cultura e arte.

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No material escrito por Mayra Fonseca: para além de vestuário, fios entrelaçados podem contar importantes histórias brasileiras para quem posiciona-se de forma sensível para ver. […] Temos algo precioso a aprender com aquelas mulheres e lugares: a sabedoria da renda. Um saber que começa com o olhar que aprecia o próximo e com a postura do “fazer junto”. Meninas caririenses sentam-se ao lado das mais conhecedoras para primeiro observar, para depois tecer. Todo o demais, é resultado do saber lidar com o tempo com a leveza de quem aprendeu na roça que nenhuma beleza natural surge da noite para o dia: é preciso abraçar e celebrar cada pequena conquista cotidiana. […] Fica a lembrança do papel da mulher brasileira enquanto guardiã de nossa criatividade cotidiana, a evidente necessidade de nos autoconhecer, a certeza de que sempre há algo para aprender e criar a partir de nossa própria história”.

7. O amor é importante, porra.

Já mostrei aqui o vídeo do desfile do Ronaldo Fraga que me fez chorar e queria terminar falando de amor. Esse post já ficou grande que baste e eu quero mais é encerrar dizendo: encarem a moda como arte, o corpo como suporte, a personalidade como fio condutor, mas lembrem que por trás de cada peça bate o coração de quem criou, pensou, executou, e que isso só fica mais rico quando alguém usa.

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Fotos: Agência Fotosite e Vogue

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Com amor, Ronaldo Fraga no SPFW

O amor é um dos poucos sentimentos que bate em todos, não importa nível intelectual, social, raça, origem, idade. É universal. E foi com esse tema que Ronaldo Fraga fez meus olhos encherem de água (alô playlist para chorar no banho) e meu coração bater mais forte no primeiro dia de SPFW.

“Em tempos tão difíceis como os nossos, falar de amor já é bastante revolucionário”, disse o estilista. Na trilha sonora, a brasilidade de Chico Buarque, o clássico de Tchaikosvsky, o jazz de Freddy Cole. Um play que vale a pena para começar a terça-feira como o amor na visão de Ronaldo Fraga: imprimindo a leveza de uma pluma ao peso da existência.

A primeira cena do desfile já faz uma provocação sobre gêneros, quando os modelos mostram que, mais do que masculina ou feminina, a roupa é para quem a usa. A seda confeccionada pelas artesãs da Vila da Seda, comunidade no Paraná, é o tecido base. Outro ponto alto são as estampas e os bordados, que trazem corações, partituras musicais, cartas de amor, rosas, cravos. ♥

A beleza com boca vermelha teve inspiração em obra de Leonilson que tem a frase “O amor faz a gente enlouquecer”. Esse post é muito mais pelo desfile-espetáculo do que pela coleção, mas para não dizer que não falei de flores, três looks que tem a cara da proposta de Ronaldo Fraga:

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As (minhas) semanas de moda

Alôôôôu, gente! Depois de um sumiço louco, eu voltei (e agora é pra ficarrr, hah). Os últimos dias foram os mais corridos da vida, de muuuuito trabalho: numa maratona de semanas de moda, começando pelo SPFW e terminando Fashion Rio, com um dia de descanso entre os dois. E é sobre isso que eu quero falar aqui hoje – não é desabafo, nem uma grande reflexão, mas uma observação. Venham comigo 😉

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Fiquei quase meio mês fora, andando por lugares em que a moda deveria ser início, meio e fim, mas pouca coisa do que eu vi mexeu comigo a ponto de querer mostrar aqui no GG. Minto: as passarelas, sim, tiveram um movimento interessante e mais maduro – recomendo dar uma passeada pelo FFW para ver de perto as coleções e ler o texto da jornalista Vivi Whiteman Vai vestir o que, Brasil brasileiro?“. E olha como ela termina:

A moda, seu imaginário multicolorido da carochinha, seus namoros superficiais com diversas esferas do conhecimento, sua tecnologia, seu sistema de negócios e sedução etc Tudo isso vai muito além dos “looks do dia” e dos manuais simplificados de “tá usando”.

Pois aí entra o meu segundo ponto: do lado de fora dos desfiles, essas duas aspas da Vivi atingiram proporções bizarras. Um universo de meninas cheias de tendências, e todas tão iguais. O que me fez lembrar de quando outra jornalista de moda, a editora-guru Suzy Menkes, comparou essas meninas a pavões, usando a expressão fashion circus para descrever a porta de um desfile. “É o mercado de exibidos esperando para serem escolhidos ou rejeitados pelos fotógrafos”, disse ela.

E é exatamente nessa brecha, que já nem é mais brecha de tão cheia que ficou, que estão as blogueiras. Com suas câmeras penduradas, posando e tirando fotos, usando ~a moda, se multiplicando por minuto. Sei que nem todo mundo que estava lá tem blog – embora desconfie que seja uma boa porcentagem. Também não estou falando que isso não é legítimo: acho ótimo que cada vez mais pessoas tenham acesso ao que acontece dentro de um mundo tão restrito, que é o da moda, mas quando o que está lá vira algo que só está lá para aparecer, sem nenhum outro sentido, sinto que tem coisa errada.

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Claro que existem blogueiras fazendo um trabalho muito sério, olhando para além do umbigo e colocando a moda em discussão. Voltando para a Vivi: bacana para ela seria ver nascer uma nova geração de blogueiras. “Em vez dos pavõezinhos de circo que pipocam dia e noite por aí, um pavão misterioso, capaz de levar para o universo do blog a capacidade de análise de Suzy e de outros pensadores da moda. Moças capaz de ir além das vitrines, de falar de estilo com racionalidade e sentimento“. Não seria demais, gente?

Uma das minhas blogueiras preferidas, a Leandra Medine do Man Repeller, questionou: o que está acontecendo com a parte do “estilo pessoal” de manter um blog de “estilo pessoal”? Depois dessas duas semanas de moda, poderia ir além: QUEDÊ O ESTILO PESSOAL? É como a frase antiga da editora Diana Vreeland: não se trata do vestido que você usa, mas da vida que leva no vestido. E é isso o que falta para muita gente – preencher o que tem ali dentro da roupa. Outra lembrança pertinente: um post da Julia Petit de janeiro de 2012, durante um SPFW, falando sobre gurias que parecem cópias das imagens que vemos nos sites de street style gringos. O título do artigo era Zombieland (!).

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Mas eu sei que não adianta pirar: o negócio é pensar e tentar fazer diferente. Provocar. Agir. Já falei tanto aqui, e agora quero saber qual a ideia de vocês sobre isso. E para fechar o post com quem sabe das coisas, Regina Guerreiro: “Se todo mundo está sempre igual, o mundo fica muito chato”.

Beijo!

*Em tempo: para quem perdeu, vale ler o post da Ester – Refletindo… – mais focado nessa mesmice dos blogs.

Ilustrações: Garance Doré