Por

No balanço

♫♪ Para ler ouvindo: Changes ♫♪

Era 03 de janeiro quando eu comecei a escrever esse post. Minha ideia era publicar no dia 04, uma segunda-feira, com uma ideia simples: o ano começou, e agora?

E mostrar como devagarinho a gente descobre que para colocar projetos e sonhos em prática, não é preciso deixar apenas que o 2016 se encarregue. Devagarinho a gente aprende que as resoluções são muito mais da alma do que do ano novo. É devagarinho que a gente percebe que temos em nós uma energia transformadora. Bem devagarinho a gente vê que não basta pular as sete ondinhas, é preciso ter fé (ou qualquer outra força com capacidade movedora). O desejo tem poder.

Outro dia li em um horóscopo: a oportunidade repousa justamente na sintonia de frequências amorosas. Muitas vezes não sabemos o que queremos, mas quando colocamos trabalho, cuidado, carinho, dedicação, vontade em algo, as coisas acontecem. Devagarinho.

Corta para o dia 04 de janeiro, quando a minha vida mudou de uma hora para outra — significa: trocar de emprego, de rotinas (dos últimos cinco anos!), de trajetos, de hábitos, de caminhos. Tão rápido que mal dava para respirar. No domingo seguinte, sentei de novo, retomei o texto, respirei. Salvei rascunho.

Acordo no outro dia com várias mensagens dizendo o mesmo: David Bowie morreu. Conheci as músicas dele no colégio e elas me fizeram companhia em tantos momentos que só restou sentar e chorar. O cara que abriu a minha cabeça, criativo, transgressor, curioso, original, atrevido, vibrante, livre. We can beat them, forever and ever, we can be heroes, just for one day. Liberdade, liberdade…

bowie

Li aquiBowie made me feel what science fiction made me feel—the vertigo of imagination—and made me start to understand that I could acknowledge my dread and sadness about the future as well as my hope. And so the short version of my Bowie story is the same as most other people’s: I found him when I needed to find him. 

A cada homenagem, de Gaga a Lorde, eu choro um pouquinho. É egoísta pensar que eu nunca vou ver de pertinho, eu sei, mas dói. Não dá para imaginar um mundo sem David Bowie, disse o blog do Matias, e assino embaixo.

Screen Shot 2016-03-01 at 11.34.20 AM

Mais uma semana passou, e outra, e um mês. Até hoje, 1º de março, foi um tempo de adaptação, de entender como seria o meu 2016, de depois da tempestade, a calmaria. Não tenho pressa para chegar em lugar nenhum. Desde 2014, coloquei na cabeça uma ideia de buscar o equilíbrio, mas para 2016 deixei isso de lado. Quando vi o Marcelo Quinan no Creative Mornings, entendi que não é isso.

O canal é o balanço.

Enquanto o equilíbrio é repouso, é como “as coisas são”, disse o Quinan, o balanço é dinâmico, é como “as coisas estão”. Quero estar, aproveitar todos os pedaços, movimento, caminhar, saborear os passos. Devagarinho.

É por isso que demorei para voltar aqui. Como seria o ano novo do blog? Para essa empreitada, me juntei a duas amigas que são daquelas da vida, a Lanna e a Fê (tem mais sobre elas aqui do lado) e, sem pensar muito, HEY HO. Sem mais ensaios de volta que acabam esquecidos. Vamos falar de moda, música, cinema, arte, movimentos culturais, beleza, autoestima, consumo consciente, comer bem, trabalho e, por que não?, sobre expressões do amor. Esse é meu crew:

fazendo a egípcia ✅

Uma foto publicada por Taidje Gut (@taidje) em

Colem na gente 😉

Por

A tal geração Y

Por vezes o peso da minha geração me pesa. Mas é só de vez em quando. Talvez tenha sido mais fácil para minha mãe ter menos opções. Um cargo público, constituir família, um amor para toda vida (elástico, mutável, duradouro, corajoso). Sem nada de líquido, evaporado, presente que vira passado na máxima rapidez de um post. Ou talvez tenha sido difícil da mesma maneira. Sei lá. Acontece que essa coisa de ter muita opção também é opressora. Ou melhor. É e-x-t-r-e-m-a-m-e-n-t-e opressora.

Eu, por exemplo, temo comprar um apartamento. Imagina. Um apartamento. PARA. TODA. VIDA. O mesmo apartamento. As mesmas paredes. O mesmo hall. A mesma síndica. Tenho a teoria de que não se compra mais apartamento na mesma medida em que não se baixa mais música. Tudo está na nuvem. A vida está na nuvem. Espero que a vida não chova (tuntunpish). Mas, aí está, como comprar um apartamento se existe a possibilidade de morar no Rio? E aquele emprego em Barcelona? ¡Por Dios! Que saudades de Gaudí pelas ruas. E aquele nosso projeto de largar tudo e ir para Cuba viver da nossa arte, tá de pé? Volta pra Cuba, comunista! E Sampa? O Caê adora! Ixi, longe do mar e carne muito cara, nem por um decreto. Mas e a carreira de sucesso? Que confuso!


Imagina encontrar um jovem / geração Y e ouvir:

– A vida? A vida anda óooooootima! Adoro meu trabalho. Tem problemas como todos os outros, é claro, ninguém é feliz o tempo todo. Com certeza a caixa do Zaffari também se incomoda. Mas de que valem os momentos bons se não fossem os ruins, não é mesmo? Quero casar, ter filhos. Uns 4. Comprar uma van que corre aquela porta para o lado, sabe? Enfiar todos os bacuri lá dentro e partiu Sogipa. Ficar em Porto alegre, adoro Porto Alegre, essa cidade emocionada, úmida, sem praia, mas que amo e me coloca a uma estrada curta do Uruguai. Quero fincar raízes, quero seguir o fluxo natural da vida, quero envelhecer. A velhice me toca. O Nelson Rodrigues mandou.

Um sonho. Talvez eu me tranquilizasse de alguma maneira sobre algo que nem sei. A pressa dos outros me obriga a correr. E nem sei para onde estou indo. Na dança da vida tenho me sentido assim:

lanna_gif

Porque o curso natural das conversas de bar é o seguinte:

– O trabalho? Está uma merda. Essa cidade? Violenta e pequena para o tamanho dos meus sonhos. Relacionamentos: zerei o Tinder, mas sigo em busca de algo que não sei. Tô pensando em ir para fora. Tentar um MBA Motherfucking Business Platinum em Kosovo que não vai valer absolutamente nada quando eu voltar, mas é isso aí, temos que rodar, por a cara no mundo.

E volto para casa me perguntando: como eu, uma jovem mulher independente que busca pelo conhecimento, que almeja uma carreira legal, vai viver sem um MBA Motherfucking Business Platinum em Kosovo? Eu sou um lixo. Eu deveria ser presa por baixar o índice da inteligência dos jovens do Brasil.

Mas, peraí.

Para onde nós estamos fugindo? E do quê? Onde é o horizonte para onde a gente corre? E quando digo nós me coloco neste mesmo barco, companheiro. Estamos fugindo da vida? Ou a vida Y é correr sem rumo, meio sem motivo? Ou com vários motivos? Milhares de motivos, músicas, tipo de carreiras, amores, cursos, estilos, novidades? Ou será que temos encarado a vida meio como encaramos o Netflix: existem milhares de opções, sim, mas no geral são todas excepcionalmente ruins e bom mesmo é pagar os dez abusivos reais na Espaço Vídeo porque o mocinho que trabalha lá sabe todas as bocadas dos filmes bons.

Não estará aí o meu, o seu, o nosso dilema? Não vale mais locar um filme bom a dez reais do que pagar dezessete por mês e ver oitenta filmes ruins? Séries americanas que daqui alguns dias nem lembraremos o nome? Não sei. Não há como saber. Só o tempo dirá (se todos não estivermos dopados de antidepressivos para conseguir guentá essa pressão toda), meu amigo. Se depender de mim, seguirei tentando manter a calma que não é muita, estarei pelo Bom Fim, lerei livros de velhos, talvez compre um apartamento, talvez corte o cabelo, talvez fique feliz, talvez esqueça e cresça. Mas, aí a amiga liga e diz que a bolha imobiliária do Rio de Janeiro explodiu e que agora é a hora…

Ad infinitum. “No me sigas yo tambien estoy perdido” nunca fez tanto sentido.

LANNA_GG

Por

Fragmentos

lanna1

(eu, escondidinha no Tropicália, do Hélio Oiticica. Bienal do Mercosul, 2015.)

1.
De acordo com meu pai “a crise” não existe. Foi inventada. É quase um filme alemão de gosto duvidoso em que uma verdade absoluta inventada é colocada a prova e todos caem. Dia desses minha mãe enviou uma mensagem que dizia mais ou menos assim, em tom fúnebre: “Minha filha, me preocupo. O sistema democrático em que fostes criada talvez não seja o mesmo dos meus netos, é possível que golpe esteja próximo”.

2.
Ontem eu estava vendo o Sangue Latino e ouvi uma frase que era mais ou menos assim “a arte nos diferencia dos animais”. Depois, fiz um paradoxo com meu pânico ao entrar em casa correndo com a chave na mão por uma insegurança que me tomou nos últimos tempos (desde que vi um cara com uma arma apontada para o meu prédio) com um lado animal da “crise” (em seu estado puro). Viramos baratas tontas e o museu ainda é um lugar seguro.

3.
99% de uma exposição não vai tocar ninguém. E nem serve para isso. O que vale mesmo são aqueles 1% que nos colocam em conexão com alguma força maior, dura, que nos arrasta e nos afoga. Uma força que nos humaniza. A arte dá um tapa na cara da barata tonta. E é para isso que ela serve. Ela pega essa vida cheia de crediários e nos humaniza. É um pouco Deleuziano em que “Se não captar a pequena marca da loucura de alguém, não pode gostar desse alguém. É exatamente esse lado que interessa. E todos nós somos meio dementes”. O que importa é se conectar, nesse 1%, com a nossa loucura interior e gostar dela. Eu toco você na sua loucura e você toca na minha e assim vamos vivendo em paz.

4.
Hoje eu estava no MARGS e uma menininha de uns 6 anos disse: “aquela é a Tarsila, eu já estudei ela”. E entendi que a dor do parto deve valer a pena quando uma criança de 6 anos reconhece um Tarsila que nem fica na altura da visão dos olhos dela. Se um dia eu parir, espero que isso aconteça ou que ela pegue no sono enquanto eu leio o livro do Martinho da Vila.

5.
Em 2011 a Bienal foi quase como uma ruptura de tudo que eu já tinha visto. Tinha acabado de fazer 21 anos e o tamanho daquele cais parecia atracar tudo que vinha pela frente: o mundo. Morava no interior, mas vinha sempre que podia. Passava o dia lá andando e andando. Passado algum tempo, vá lá, 4 anos, posso afirmar que não teve Louvre e Tate Modern que superou o que aquilo foi para mim. Foi a primeira vez que vi um Henrique Oliveira, um Cildo Meireles e a baita obra do Yanagi Yukinori (que nunca esqueci). Aquele lugar, grande, enorme, aquela cidade toda quente e em fervorosa. Aquilo para mim representava uma Bienal. E foi a imagem que guardei na mente e levei no coração.

5_lanna

6.
Importante ressaltar a notícia que saiu no jornal: “A Bienal também está em crise. Em ano de sufoco da economia, o orçamento caiu de R$ 13 milhões para R$ 6,5 milhões. Para que o projeto fosse mantido, essa redução de 50% levou a uma reengenharia de custos envolvendo o transporte de obras emprestadas de acervos públicos e coleções particulares de países da América Latina”.

7.
Domingo. 2015. Passei andando pelos pontos onde a Bienal do Mercosul se instalou na cidade que escolhi para viver e amar e habitar (e porque alguém precisa resistir depois que todos os meus amigos por vontade ou sonho se mudem para São Paulo, sobraremos eu e Nei Lisboa no Zaffari da Fernandes Vieira). Dia meio cinza, meio qualquer coisa. Começar pelo Santander, ir ao Memorial do RS, passar no MARGS, caminhar pela Rua da Praia até o Gasômetro e sorrir, “toda uma cinematografia um tanto estapafúrdia”. No centro de Porto Alegre me sinto no centro do mundo.

7.
Vamos ao que dói:

———–

Santander Cultural

1_lanna

Essa obra da Adriana Varejão (tá no segundo andar) me lembra o que conversava com a Taidje dia desses sobre um poema da Matilde Campilho que era mais ou menos assim:
“Existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra. Não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação? (…) O amor é um animal tão mutante ,com tantas divisões possíveis… Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão? Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha, e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando… Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor”.

E na conversa a gente se sentia melhor por ter falhas, amava um pouco mais as nossas imperfeições, pois é assim que a luz entra. No meio da conversa era isso, na obra da Adriana Varejão não posso ter certeza, mas me apaixonei da mesma maneira.

Memorial do RS

2_lanna

Wesley Duke Lee, não te conheço, mas te queria bem grande na minha casa pra te olhar todos os dias.

MARGS

3_lanna

Tem Hélio Oiticica? Tem sim, sinhôooo! Tem Diego Rivera? Tem sim, sinhôoo! Tem Tarsila? Tem sim, sinhôooo! Tá de chorar amiúde.

Gasômetro

4_lanna

Aqui, meus amigos, a coisa só descamba para um lado emotivofóbico que me dilacera o coração. Tem Tropicália, do Hélio Oiticica, tem Lygia Clark, tem Adriana Varejão linda mais uma vez com Tintas Polvo, tem Bispo (por quem eu tenho uma queda brusca), tem Rubén Ortiz-Torres em Tierra y Libertad. Eu moraria lá. Moraria. Não tinha o cais, mas tinha todo o resto. Não tinha dinheiro, mas tinha todo o resto. Não tinha a Lanna de 21 anos, mas tinha a de 25. Obrigada, Bienal.

8.

“E depois acordamos sempre ainda meio vivos, um pouco ensonados. É-nos mais ou menos fácil entrar na vida depois destas coisas”.

 

Coragem, que é segunda-feira.

LANNA_GG

Por

Playlist para chorar no banho

Um dos maiores legados que a Revista Lola me deixou foi um texto da Hilda Lucas que falava sobre chorar no banho. Depois daquele texto nunca mais fui a mesma perante este evento cotidiano. Virou algo entendível entre minhas amigas (que também foram abatidas por este texto):

– O que vai fazer hoje?
– Só quero chegar em casa e dar uma bela de uma chorada no banho.

E todo mundo se entendia. É não é necessariamente uma questão de tristeza. É uma questão física, uma questão de tempo e espaço também.

Além disso, dia desse vi um caboclo dizer que a última água que corre no banho é a água que fica e o pensamento fica com ela. Eu respeito o banho como a uma oração. Então, aí vai a PLAYLIST PARA CHORAR NO BANHO.

1. Johnny Hooker – Amor Marginal

2. Buika – El ultimo trago

3. Los Hermanos – Fez-se mar

“A vontade de tomar banho aflora como uma urgência, uma tábua de salvação, um remédio nas horas mais difíceis e complexas. Tomar banho depois de uma situação extrema é o primeiro indício de que a vida voltará, de uma forma ou de outra para os trilhos. O banho funciona como o primeiro sim que você diz à continuação do viver.

4. Mayra Andrade – Meu farol

5. Nelson Cavaquinho – A flor e o espinho

6. Cartola – Peito Vazio

7. Daniel Johnston – True Love Will Find You In The End

“Mas tarde você analisará no banho as rugas, a flacidez, as marcas do tempo e, depois de certo assombro, tomará seu banho com a mesma diligência amorosa de sempre. No banho, a crônica da vida.”

8. Gal Costa – Sua Estupidez
“Sabe uma faca me rasgando? (…) Eu não sei, Gal Costa sempre me trata com choques elétricos.

9. Tim Maia – O que me importa

10. Nina Simone – Just Say I Love Him

11. Amarante – Irene

“Mas só quando você toma um banho day after, você compreende a força do banho. Banho day after é aquele do dia seguinte a uma ruptura, uma tragédia pessoal. Você sabe que depois daquilo nada será como antes. A vida não será a mesma, nem você será a mesma e, no entanto, você toma banho como se tudo continuasse como era. É incrível. Sua mãe morreu e você toma banho como fez todos os dias. Você se separou e lá está você no banho, a despeito de tudo. Você perdeu um filho, um irmão, sua melhor amiga ou descobriu que tem um tumor e, estoicamente, toma banho. O santo banho, aquele que faz você voltar a funcionar, pois, no caos, o hábito é a regra de outro para que a vida se recomponha. Nessas horas, tomar banho é comovente. E você tem certeza que a vida é pura teimosia, que continua a despeito das perdas e do reveses e no banho você está apenas afirmando: estou dentro, estou viva.

12. Maria Bethânia – As canções que você fez pra mim

13. Chico Buarque – Tatuagem

14. Julio Sosa – El ultimo cafe

15. Dorival Caymmi – O bem do mar

Saravá e bom chororô!

LANNA_GG