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Nove coisas que a timeline do Facebook tem insistido que você aceite…

…mas que você não precisa (tipo essa lista)

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Ninguém sai ileso de um giro pelas redes sociais. É faça isso pra cá, seja assim pra lá, substitua qualquer coisa por linhaça aqui e pense desse jeitinho ali. Ufa, que uma breve rolada na timeline do Facebook já nos coloca um monte de pressões e opressões. Por isso que essa lista foi feita com a seguinte premissa: não é preciso seguir nada do que vem abaixo. Chamamos carinhosamente de nossas “não opressões” — então fiquem bem à vontade para pensar e fazer o que quiserem sobre elas. 😉

1. seja de boas

Quando começaram a aparecer as imagens com aquele bicho preguiça lindinho ilustrando o tal ‘deboísmo’, eu revirei os olhos antes mesmo de respirar. Porque acredito que quem está sempre totalmente de boa é muito mais uma pessoa que não se importa tanto com as coisas e os outros do que realmente uma pessoa evoluída e paciente. Por que essa implicância com a treta? Por que reprimir aquela sensação que vem rapidinho e poderia sair de dentro de você com um “meu amor, não está tudo bem não”. Meus amigos, dizer o que está pensando, o que está incomodando, perguntar ‘como-é-que-é?’ é apenas um dos melhores regimes da alma. Deixa uma leveza incomparável. E essa é só a parte política da minha luta em defesa da treta.

namastretaFora isso, tem a aquela nossa latinidade. O sentimento e intensidade em tudo. Acredito que seja essa coisa latina que dá aquela fervida no sangue ao primeiro sinal de ciúmes, desconfiança, conflito. Pensem comigo, o que é melhor? Aquela resposta atravessada no WhatsApp às 3h da matina ou aqueles dois sinais malditos em azul eternamente abandonados? É morrer de raiva com o som da porta batendo ou estar num mesmo sofá sem trocar uma palavra? Vamos apenas aceitar que o conflito dá trabalho mas resolve. Brigar é amor do avesso. E eu não serei ‘deboísta’ não, muito obrigada.

(não opressão da Fê)

2. seja um ser “evoluído”

Dia desses li uma reportagem na Vice falando o seguinte: “É fácil esquecer a retórica racista de Gandhi, sua alergia veemente à sexualidade feminina e sua pouca vontade em ajudar a libertar a casta dalit, ou os ‘intocáveis”. O que me fez chegar a seguinte conclusão: nem no espírito elevado de Gandhi se pode confiar plenamente. Essa coisa de se pregar evoluído, leitor de todos os livros didáticos sobre como lidar com pessoas, postagens antirracismo, antissexismo, compartilhamentos de matérias pró-bem-do-mundo, textões se parabenizando por ter feito o bem de alguma maneira… Tudo isso pode ser resumido em: não ser um escroto quando o mundo te der a possibilidade.

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Toda a Yoga, meditação, pouca produção de lixo, sustentabilidade, criação de horta orgânica, tudo isso pode levar um certo tempo. E incrível se você se dedicar a todas essas coisas. Mas aquele velho papo do “fale menos, faça mais” pode ser interessante. E fazer mais pode ser só “fazer menos” grosserias aleatórias. Ninguém está em casa pensando em como você pode ser a nova Madre Teresa. Na verdade, ninguém está esperando que você faça nada. Ninguém (realmente) se preocupa com a bondade que você contou que fez no Facebook. O like é passageiro. É efêmero. Masssss, no momento em que você se vende como um ser evoluído e faz uma panaquice (como ser uma vaca com alguém que não merece), o ódio por você explode no mundo em dobro porque ninguém espera que você seja uma vaca e aí você é e causa uma sensação de despreparo e desconforto em todos a sua volta. É preferível não pagar de evoluído. Estamos todos lutando para isso. Ninguém chegou lá, nem Gandhi. Se hace camino al caminar.

(não opressão da Lanna)

3. vista a camisa do trabalho

Quando foi que obrigaram todos os seres a amarem seus trabalhos? Foi o Google? Foi o Hypeness? No momento em que um texto “O mal da geração y” é compartilhado por mais de 80% do Facebook, algo deve ser revisto. Parem com essa mentira. Amar o trabalho é legal. E se você tiver a chance de trabalhar com o que ama, perfeito. Mas se não amar, também tá tudo certo.

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Vamos combinar que cada vez que aparece um “fulano larga tudo para se dedicar ao seu amor a alguma coisa” na timeline, morre um panda na China. Pessoas amam coisas a todo momento. Mas, se todo mundo largar tudo, a economia do mundo vai parar. Se a vida for boa antes das 19h, você é uma sortuda. Aproveite. Mas não vamos julgar ou pressionar quem não é. Repreender quem não é feliz da maneira que você acha que a pessoa tem que ser feliz é uma maldade. O truque é encontrar um emprego que pague decentemente, não faça a gente passar mal e deixe com energia para fazer coisas no tempo livre.

(não opressão da Fê, Lanna e Tai)

4. abra um negócio

Eu gostaria profundamente de ser a ˜CEO˜ de um café bacana, uma parrilla uruguaia, um bar descolado, uma casa de bronzeamento artificial, uma marca de roupas massa (essa eu até que tô tentando). PERO, nem todas as pessoas do mundo serão bem recebidas pela Caixa Econômica Federal para tirar um financiamento, nem todas as pessoas herdaram patrimônio, nem todas as pessoas possuem um carro para vender e por último, mas não menos importante, nem todas as pessoas que começaram negócios sem investir 1 tostão estão mais felizes do que os freelas, PJs, MEIs e CLTs. Empreendedorismo é lindo. Mas não é obrigatório. Às vezes ter uma carteira de trabalho bem bonita e férias remuneradas também pode ser bem divertido. Ninguém precisa ir atrás de um negócio para abrir, vamos deixar a Grande Magia (aproveitando a deixa para indicar o livro) acontecer e esperar que o seu negócio procure você e que você seja a pessoa realmente certa para isso. Nem todo mundo tem tempo, nem todo mundo está afim.

(não opressão da Lanna)

E tem mais: quando a gente fala sobre nem todo mundo querer, não significa que a pessoa não pode ter uma veia empreendedora e ter vontade de exercitar isso. Mesmo batendo ponto todos os dias, é possível trabalhar com algo nesse sentido. Colocar ideias de pé já é um forma de projetar, e isso vale para áreas mais descoladas como a publicidade mas também para, sei lá, o RH de uma super empresa. Ninguém precisa viver de uma coisa sua. O GG, por exemplo, começou lá em 2010, quando a onda dos blogs começava a surgir. Na época, eu e a Ester poderíamos ter colocado sangue, suor, lágrimas e dinheiro para fazer um negócio que fosse rentável, contratar pessoas, etc etc. Mas o propósito não era esse, era o contrário: o desejo era que esse espaço fosse a nossa catarse do dia a dia, o nosso projeto-totalmente-paralelo – e aqui vale um adendo: chega de levantar bandeiras de viver de projetos paralelos. Quem gosta, que tenha. Quem não, ou não tem paciência, só quer chegar em casa do trabalho e ver GNT, que não tenha.

(não opressão da Tai)

5. deixe o Brasil

Brasil, ame-o ou deixe-o. Aplicando aos anos 2016: Brasil, aceite a situação ou arranje uma grana para dar o fora. Só que ninguém precisa desse impasse. Ninguém precisa se sentir “diminuído” por “ficar”. Essa opressão de “jovem decide viver no norte da Islândia” é muito dura. Nem todo mundo tem grana para bancar isso, mas muita gente também não tem vontade. E tudo bem, sabe? Eu saí da casa dos meus pais (no interior do RS) com 21 anos. Desde esse dia nunca dependi de ninguém, nunca pedi $ para absolutamente nada (nada mesmo) e me orgulho disso pois talvez seja o que de mais rico levei de toda uma experiência de percalços (trocar resistências, passar uma semana com R$8, descobrir como se limpa ralos): ser realmente I N D E P E N D E N T E. E, desde esse dia (o dia em que saí de casa minha mãe me disse, filha vem cá…), eu já estava FORA. Mesmo a 300km. Nunca morei na Islândia e acredito que deva ser uma experiência incrível de vida. Mas, ninguém PRECISA morar fora do país para passar perrengues, trabalhar duro em serviços que enobreçam como comércio, garçom, etc, sofrer e conquistar liberdade e independência. O mundo é lindo. O Brasil com seus problemas (insira aqui todos eles) também é lindo. Não vamos fugir desse lugar, baby. Ou melhor, ninguém precisa fugir de nada que não queira, baby.

(não opressão da Lanna)

Já falei aqui que morro de medo de avião. Só isso já seria meio caminho não andado sair do país (imagina ter que ir e voltar, vish). A pressão começa no todo mundo tem que viajar, mas ok, posso até entender que seja para criar repertório, conhecer culturas, abrir a roda, enlarguecer. Mas para mim simplesmente não bate a história de morar em qualquer lugar do mundo trabalhando como qualquer coisa e ganhando qualquer dinheiro. Fui morar sozinha tarde – com 24 me casei, com 26 me separei, então eu-por-mim faz só dois anos. Mas digo pra vocês que pra mim não tem sensação igual a chegar em casa, acender um incenso, abrir um vinho, ler, ouvir música e construir a minha vidinha no lugar em que eu escolhi dentro desse Brasilzão. Conhecer o dono da fruteira, fazer as unhas no mesmo salão, saber os melhores caminhos para o cinema, ter o churrasco de família nos domingos, estar perto de quem eu amo: essa é a minha pira. Tenho uma prima, a Nicole, que tem 22 anos, estuda Relações Internacionais, mora na Coréia e não tem planos para voltar. A minha tia Cláudia mora em Roma faz quase 30 anos. Não é maravilhoso ter espaço para todo mundo aqui, ali e em todo lugar?

(não opressão da Tai)

6. tenha diplomas

Há alguns anos fui selecionada em uma seleção de mestrado em Comunicação bem disputado. Fui perguntar ao chefe da empresa em que trabalhava na época se poderia mudar alguns horários por motivo das aulas e ouvi a seguinte frase: “tudo bem, vai, não posso te prender, mas os melhores profissionais que conheço não fizeram mestrado”. Naquele momento eu considerei algo ULTRAJANTE, absurdo, me magoei, dei uma leve sofrida, chorei no banho. Acabei não fazendo o mestrado porque a bolsa era insustentável para quem ganhava quase o que pagava de aluguel. O que rolou de lá pra cá foi: trabalhar muito e duro e bem feito e aprimor e buscar e inovar e estar disponível a novos desafios e baixar a cabeça e fazer acontecer e ficar até mais tarde se preciso mas também falar o que está errado e não dar uma de louca e ser grossa e escrota e sempre sempre sempre mesmo manter a humildade de mulher que trabalha oito horas e tem que tirar o lixo do banheiro quando chega porque ninguém vai fazê-lo.

Mas todos os dias eu estudei. E estudar não é pegar um caderno e assistir uma aula. É ver como o chefe faz, é ler muito todos os sites legais, saber das últimas pesquisas, ter os dados na ponta da língua, (no meu caso) saber que marca fez o que, mesclar uma Elle com uma boa Piauí de vez em quando. O esquema do mercado é outro. Nunca apresentei meu currículo lattes (de 9 páginas com alguns prêmios de ˜Jovem Pesquisador˜) em nenhuma agência que trabalhei. E nem por isso as pessoas confiam menos no meu trabalho. Isso não é de todo legal. Mas, também não é ultrajante. Estudar é uma escolha, não uma opressão. O MBA não vai salvar a sua vida se você não se esmerar em ler um bom livro quando chega em casa. O curso hypado da escola maneira não vai te fazer ganhar um Leão. O mestrado não vai te fazer passar em um concurso para professor federal se você não batalhar muito por isso. O lance é ser bom e saber passar uma Qboa no chão para moldar o caráter (e aqui vale reforçar: se você é homem e está lendo isso a Qboa também é para você). O resto é dedicação e flow da vida.

(não opressão da Lanna)

7. aceite quem você é (mas desde que dentro de um padrão)

Adoramos como a Avon se posiciona, como a Dove se posiciona, como a Quem disse, Berenice? se posiciona.

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É indiscutível. Mas, no nosso grupo de WhatsApp com grandes amigas, uma delas enviou uma foto de uma mulher bem vestida e disse: “quanto eu gastaria por dia se me vestisse assim?”. Nós discutimos sobre isso falando coisas como “hahahahah verdade, queria muito, mas tô pintando só a pontinha da unha descascada e passando extrabrilho há 4 dias”, “hahahah incrível, mas gostaria de gastar R$300 em calcinhas novas antes de comprar uma parka”. É legal dizer que todas podem se maquiar da maneira que quiserem. É legal aceitar o nosso corpo. Incrível, amamos vocês e compramos seus produtos. Mas, tem vezes que a gente dorme sem lavar o cabelo mesmo e tudo bem. E tem dias que a gente se maquia tipo uma drag e ninguém nos reconhece no trabalho e tudo bem. Esse quê perene de cuidados e preocupações com o corpo/moda/mente é de leve mentira, às vezes por tempo, por grana, por falta de vontade mesmo. E esse post vem para dizer: nós sabemos que o shampoo a seco não serve só para dar um ar praia, ele serve para reaproveitar a chapinha daquele casamento no sábado para usar na segunda-feira.

(não opressão da Fê, Lanna e Tai)

8. ser original

O dicionário diz que “original” significa primitivo, inventado, singular. Foi no Roube como um artista que eu li alguma coisa do tipo: quando uma pessoa chama algo de original, é porque não conhece todas as referências que estão por trás.

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Nada vem do nada. E isso dissolve toda a angústia de ser o primeiro, de fazer algo extraordinário que tenha como ponto mais alto ser inédito, da geração do FIRST FIRST FIRST. Relaxem, gente: isso não existe. O livro é todo muito bonitinho e toca em pontos interessantes, mas o que mais vale aqui é a ideia de mergulhar no trabalho de todas as pessoas que gente admira – o resultado do nosso, inevitavelmente, vai ser uma ligação disso tudo. Em vez de se preocupar em ser original, que tal fazer o exercício da árvore genealógica de referências, proposta pelo autor Austin Kleon? O esquema é o seguinte: escolha os seus três artistas preferidos, não necessariamente da mesma área – vale música, TV, cinema, artes, literatura, comunicação, moda, o que for. Depois, pesquise sobre eles e descubra os três preferidos de cada um. Assim por diante até o ponto que der. Isso é se colocar dentro de uma “linhagem”. Além de estudar o passado e preencher os nossos espaços, é um jeito bacana de se inspirar no que eles têm de melhor.

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Então temos esse combinado, ok? Vamos, sim, pensar em coisas que nos pertençam, que conversem com a nossa linguagem, mas sem a pressão social de chegar na frente sempre ou de ser o melhor em tudo sempre. Ninguém precisa fazer bolos que vão para o Pinterest, ter um bom olhar fotográfico para o Instagram e (PRINCIPALMENTE) nem saber o DIY.

(não opressão da Tai)

9. ter opiniões

Tudo o que a Letícia Novaes escreve, pensa, posta é demais. A Ornitorrinco é uma revista digital cheia de bons textões (“saia do Facebook e vá ler uma boa revista digital” é o novo “desligue a TV e vá ler um livro”). E ela dizia o seguinte aqui ó: “Algumas questões são realmente urgentes e é bom que você tenha sua conclusão sim e saiba o que está acontecendo. Para onde você estiver indo, ou para onde estão te levando. Mas para algumas outras coisas da vida, mais do campo sensorial – eu diria, não é necessário JUMP-TO-CONCLUSIONS tão rápido assim. Estar numa roda, num bar, numa mesa de amigos ou desconhecidos e falar “EU NÃO SEI” não pode ser o fim do mundo, pessoal. Pode ser o início.” Tem vezes em que é melhor não tomar lados e isso não significa ignorância, falta de comprometimento, burrice, ser coxa ou petralha.

O não saber “é um campo ativo”.

É se abrir pro outro, é ser flexível (e isso não significa falta de personalidade) e sábio (o não saber também é sábio). Por menos posts odiosos e mais mesas de bar construtivas em que a gente aprenda, ouça, avalie e faça amigos.

(não opressão da Fê, Lanna e Tai)

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