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Sobre Nina Simone, Zoe Saldana e o racismo nosso de cada dia.

Por Winnie de Campos Bueno, 27 anos, Bacharel em Direito, feminista negra latino americana.

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Foto: Natália Giusti Radtke

Começo esse texto marcando o que para mim já é óbvio, mas que nunca pode deixar de ser dito: o racismo é estrutural e como tal permeia todas as esferas sociais. Nina Simone foi uma mulher negra que dedicou toda a sua vida na luta pelo combate ao racismo. Mais do que uma cantora ímpar, foi uma militante aguerrida na luta pelos direitos civis norte-americanos.  Nina deixou um legado de luta e arte para o mundo inteiro, especialmente para as mulheres negras.  E mais ainda para mulheres pretas demais, como eu e como a própria Nina.

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Essa mulher talvez tenha sido uma das principais celebridades negras a lutar contra o colorismo. O colorismo é uma face bastante perversa do racismo que funciona da seguinte maneira: dentre o grupamento racial negro, o quanto menos sua pele for escura, menos severamente o racismo irá lhe atingir. Quanto mais escura for sua pele, maior a falta de oportunidades. No mundo de glamour hollywoodiano, nos deparamos com o colorismo a todo momento. O termo colorismo foi utilizado pela primeira vez pela pesquisadora Alice Walker (para quem não sabe, Alice Walker escreveu o romance A cor Púrpura, cujo o filme baseado na obra foi estrelado pela Whoopi Goldberg) e é  uma marca das opressões raciais, especialmente em países que passaram por  um processo de colonização europeia. Nina Simone era uma mulher de cútis muito escura e, portanto, sofreu na pele os tolhimentos e limitações que o colorismo impõe para pessoas negras.

Mas não sofreu em silêncio.

Cientes desses dados sobre a vida da cantora, podemos debater de forma mais inteligente sobre as razões da indignação com a escolha de Zoë Saldaña para interpretar a atriz no filme Nina. Já em 2012, quando a atriz foi escalada, houve manifestações pedindo para que ela fosse substituída. Essas manifestações não questionavam a condição racial de Zoe, mas sim o fato de que na indústria cinematográfica norte-americana o colorismo, tão fortemente combatido por Nina, é que dá a tônica das produções artísticas.

Contar a história de uma mulher preta, consciente de sua negritude e privilegiar uma atriz de pele mais clara para retratar a vida dessa mesma mulher é no mínimo uma baita contradição. O mais problemático é que ao escolher Zoe, a direção do filme precisou lançar mão de maquiagem e próteses para aproximar a atriz dos traços de Nina. Não seria muito mais eficaz escolher uma atriz que já tivesse essa proximidade física naturalmente? Óbvio que sim. Por que não o fizeram? Porque o racismo colorista não deixa. O racismo colorista reduz ainda mais as oportunidades da negritude, pior ainda, os coloca em tensões criadas pela própria estrutura racista.

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Essas tensões, no que tange especificamente ao filme, foram mais perceptíveis nas redes sociais brasileiras. Por aqui existiram ataques muito mais cruéis, alguns bastante descabidos, a figura de Zoë Saldaña.

É preciso entender que Zoe não pode ser o alvo das críticas.

Zoe é uma mulher negra, uma negra de traços mais aproximados do padrão Hollywood de beleza, mas ainda assim é uma mulher negra. Uma mulher negra que também suporta as consequências do racismo. Dizer que Zoe não é negra o suficiente é reproduzir as lógicas do racismo, e portanto, um erro que não podemos cometer.

Nossos ataques e nossos questionamentos devem ser as consequências que o racismo implica para a negritude. Nossas indignações devem apontar para o fato de que majoritariamente as narrativas da população negra e de suas figuras públicas são contadas por pessoas não negras que frequentemente utilizam-se exatamente dos privilégios criados pelo racismo para serem responsáveis por retratar as nossas trajetórias. Hollywood não oportuniza a visibilidade de atrizes de pele escura. Aliás, Hollywood não oportuniza a visibilidade da negritude. Não há prova maior disso do que as frequentes nomeações do Oscar ausentes de indicados negros e negras.

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Nina Simone era o tipo de mulher negra que a hegemonia branca não suporta.

Zoë Saldaña, esteticamente, tem o perfil de mulher negra palatável para os padrões estéticos racistas ainda vigentes. É evidente que não podemos responsabilizar a atriz por este fato, mas também não podemos deixar que passe “em branco” as sutilezas violentas que o racismo provoca em todos os lugares. Inclusive na arte. Nina foi vitimada exatamente por essas consequências, adoeceu, sangrou todas as dores da consciência de ser uma mulher preta. A revolta de seus familiares em ver a sua história retratada sem considerar o quanto esta mulher tinha noção que sua pele preta demais e seu nariz largo demais eram um incômodo e, muitas vezes, uma limitação na expressão de sua genialidade, é legítima e deve ser respeitada.

O que não podemos é transformar nossas inquietações com o racismo em outros ataques para outras mulheres negras.

O tom da pele determina a profundidade com que o racismo irá nos atingir, mas no final do dia, somos todas nós, negras mais claras, negras mais escuras, vitimadas por este mesmo racismo.

1 comentário

  1. Sandrali de Campos Bueno disse em :

    Hoje é difícil comentar porque, exatamente hoje, leio na timeline (facebook)da autora deste texto que a policia militar registrou uma ocorrência contra a mulher, militante, bacharel em Direito, Winnie Bueno . Motivo: ela foi defender outra militante da truculência com que o Estado aborda os movimentos sociais. A questão é que a pessoa mais escura neste espaço era a Winnie e , portanto, justificando tudo que está dito e também o que não foi dito, a pessoa autuada foi a Winnie. Colorismo também se explica nas ruas da cidades. Amanhã talvez eu comente o texto com a profundidade que ele merece ser comentado. Hoje apenas deixo meu registro de mãe indignada e com medo.

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