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O guia de referências de Velho Chico (ou tudo certo como 2+2 são 5)

Toca aqui quem não aguentava mais os cenários urbanos, o clima meio cinza, a mistura de funk com polícia, a ponte aérea Rio-SP e todas essas características que vinham aparecendo novela das nove pós novela das nove (e, vamos falar a real, depois de Carminha foram só tentativas).

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Aí que ficamos com uma expectativa altíssima pelo que se falava sobre a nova novela da Globo, Velho Chico. E não só pelo Rodrigo Santoro, não. Uma disputa familiar no sertão baiano não é exatamente uma trama nova, mas é um reencontro com a brasilidade, cheia de amores e desencontros, uma emoção que vem da terra. A paisagem aparece como território dramático e tem elementos que a gente adora, sem falar nas cores e sabores, no Brasil suado, um pé no teatro e outro no cinema brasileiro… Velho Chico tem repertório cultural de babar. Sabe por quê?

Luiz Fernando Carvalho é o diretor artístico.

O currículo dele é invejável. Peguem a vibe: Renascer e Rei do Gado lá nos anos 90; dirigiu Lavoura Arcaica em 2001, baseado no romance de Raduan Nassar – filme brasileiro que é cheio de poesia nas imagens, feito sem roteiro prévio, apoiado inteiramente no livro e na preparação de atores, me bateu muito na adolescência, recomendo;

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[Lavoura Arcaica]

Entre 2001 e 2010, fez minisséries que são incríveis, como Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino, Capitu e Afinal, o Que Querem as Mulheres?, sempre inovando na linguagem, trazendo atores maravilhosos e tendo, como resultado final, histórias apaixonantes.

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[Hoje é Dia de Maria, A Pedra do Reino, Capitu e Afinal, o Que Querem as Mulheres?]

E ele mesmo fala sobre o que há em comum entre as criações:

“Exercitam procedimentos narrativos ligados a uma pesquisa sobre o melodrama, numa espécie de viagem de reconhecimento ou alumbramento do gênero: ora patético [Capitu, Pedra do Reino], ora trágico [Lavoura Arcaica], ora as duas coisas misturadas [Hoje é Dia de Maria]. A ligação com Velho Chico se dá a partir da continuidade desta aproximação com as chaves do melodrama, aqui agora alçado à condição contraditória do próprio gênero quando jogado sobre as diversas circunstâncias estéticas e morais do Brasil de hoje”. Na foto, com Santorinho ♥

[Rodrigo Santoro e Luiz Fernando Carvalho]

A abertura é um sopro

Primeiramente, é de levantar as mãos para o céu essa homenagem que estão fazendo à Tropicália. Que delícia de assistir! É uma regravação de Caetano Veloso com arranjos de Tim Rescala e participação da Orquestra de Heliópolis. Segundamente: o painel em MDF foi criado por dois artistas, Samuel Casal (entalhe em madeira) e Mello Menezes (pintura e ilustração), e mostra lendas como a do Rio São Francisco, que teria nascido pelas lágrimas da índia Iati depois da partida do seu amor.

Psicodelia e Tropicália

Se a luz é quente, as cores mais ainda, o corpo é suado, o sol e o sertão da Bahia são só calor, um vermelho e amarelo que arde. E assim era a psicodelia do movimento hippie e da Tropicália: tudo é coração, intenso, emoção, sangue, suor e lágrimas. O Afrânio de Rodrigo Santoro é inspirado em Caetano Veloso, com cabelos bagunçados e enrolados. Impossível não olhar para a Iolanda de Carol Castro sem lembrar da Gal dos anos 70.

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Viva a banda, da, da Carmem Miranda, da, da, da, da…

Vamos falar sobre música? Além de Afrânio ter cachinhos de Caê…

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No primeiro capítulo fomos presenteadas pela cena de Iolanda dançando na piscina e remetemos diretamente a incrível capa do disco Araça Azul… Céu, tons de laranja, pele a mostra, que maravilha. Chegamos a conclusão, assim, logo no terceiro dia, que não havia como fugir desse clima tropicaliente. Vamos falar sobre música. Que delícia. Vamos ter arte e música todo dia.

Em tempos de crise total (nem de crise econômica, crise em que uma mulher é agredida por homens e mulheres em plena Avenida Paulista por estar com uma bicicleta vermelha) é tão incrível renovar a fé nos nossos tempos ouvindo os grandes artistas brasileiros: Caetano, Gal, Bethânia, Chico César, Marcelo Jeneci… Viva o Nordeste! Viva a Bahia! Viva todos os estados!

Viva o Brasil!

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Na cena do parto da Piedade (Cyria Coentro), casal de Belmiro (Chico Diaz), em meio a dor e seca do sertão rolou uma Maria Bethânia que nos fez chorar copiosamente:

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Então, consideramos que o mínimo que poderíamos fazer era selecionar uma belíssima playlist em clima Brasil Suado e Tropical cheio do nosso mais novo velho maior amor:

Não é um barato achar esse disco em pleno 2013? É um barato, Paulinho…

Uma foto publicada por lannacollares (@lannacollares) em

E aqui algumas imagens para se inspirar mais ainda no clima, na malemolência e na vibe da coisa toda:

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Arte e cultura afro-brasileira

Com um visual todo dourado, queimado, seco, um dia lindo de sol, assim é Velho Chico. E assim são as pinturas de Carybé, artista argentino que se naturalizou brasileiro nos anos 50 e ficou conhecido por painéis que mostravam a sua paixão pela Bahia, valorizando a cultura baiana, os rituais afro-brasileiros, a capoeira, as belezas naturais e arquitetônicas de Salvador.

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[Feira, Carybé]

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Também não dá para não pensar nas fotografias de Pierre Verger, que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo da cultura africana, falando em suas obros de pontos como como o comércio de escravos e as religiões derivadas da África do novo mundo.

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[Fotos de Pierre Verger]

Cinema brasileiro, de Glauber a Tatuagem

Os planos, a câmera que vem de qualquer lugar, a profundidade, os cortes secos, a história contada de um jeito não-linear nem cronológico. Tudo lembra o Cinema Novo de Gláuber Rocha e suas influências (como o Realismo Italiano e Novelle Vague). E com uma pitadinha do diretor de teatro orgiástico e antropofágico Zé Celso Martinez Corrêa.

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[O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Gláuber Rocha]

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[A Terra, de Zé Celso | Foto: Marcos Camargo]

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Mas também a cena atual do cinema brasileiro aparece ali. A gente lembrou de Tatuagem, de Hilton Lacerda…

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Nessa cena MARAVILHOSA da festa em Salvador, no Velho Chico.

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Também bebendo da fonte do teatro e da literatura, Encarnação (Selma Egrei) que tem ares de Lady McBeth, de Shakespeare, com traços de inspiração no barroco. Sofisticada, amarga e cruel.

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O que a gente quer agora: que a segunda fase seja tão espetacular quanto a primeira. Enquanto isso não chega, fiquemos com Rodrigo Santoro…

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